domingo, 5 de maio de 2013

Página em branco

Quando se começa, tudo é branco. A página e tudo à volta. As paredes também...

As paredes das cidades são também páginas em branco que convidam ao pensamento...
Escrito na parede

As paredes são como páginas abertas nas cidades, nas vilas, nos bairros, na urbanidade das nossas vidas e na brancura das nossa ideias. Tudo é branco, até nós nelas inscrevermos o nosso pensamento, os nossos anseios e desejos, as nossas culpas e as nossas queixas, os nossos silêncios e os nossos gritos, porque há uma altura em que não mais os podemos conter. Não mais podemos calar o que nos vai na alma e nos entope a consciência.


"É tão difícil guardar um rio quando ele corre dentro de nós" e depois ali fica no vazio da parede, a cor verde de esperança, o sentido do nosso desabafo, que esperamos ser transmitido aos outros. Quantos mais ali passarão e se interrogarão sobre quem teve o impulso de escrever aquilo?... Quantos mais não tentarão imaginar a pessoa que o fez!?... Quantos mais não ficarão a pensar no significado da frase?... E assim, uma mensagem solitária e perdida nos nossos passos pela cidade, começa a fazer a travessia pela memória de quantos por ali passarem e atentarem no significado daquele escrito...

Mas aquela mulher que passa, em passo decidido e ar longínquo, reinscreve a brancura da sua roupa, qual borracha, na parede branca com pensamentos verdes e não terá, porventura olhado sequer para o que ficou atrás de si. Quem sabe também os pensamentos que lhe iriam na alma, o diálogo surdo que desenrolava consigo própria, absorta em dificuldades, preocupações ou apenas devaneios do seu interior?... As urbes são o cruzamento de tudo isto, de pessoas e pensamentos, de ansiedades e perturbações, de serenidades e alegrias. E nem tudo pode ser sentido por todos e nem todos se podem aperceber das coisa e gestos que se penduram pelas paredes onde a sua sombra se inscreve. No entanto, tudo está lá. Quem caminhar atento pode descobrir um mundo de códigos e de mensagens que se inscrevem até no ar que nos envolve. É por isso desejável que se olhe e se sinta tudo o que as cidades têm para nos oferecer. Até o ar que têm para nós respirarmos. E quando a cidade tem um rio, que até nos pode extravasar o corpo, nos é permitido navegar e esse apelo deve ser cumprido. Por isso é tão difícil guardar um rio...


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