segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A caminhada final

A estrada da vida, desde que não sucedam acidentes de percurso, chega sempre a uma curva a partir da qual todo o trânsito se acumula, deixa de fluir normalmente e são frequentes as paragens, os engarrafamentos da nossa mobilidade, as pequenas ou grandes avarias de motor cansado ou simplesmente, a largura da estrada que cada vez mais se estreita, acaba-se o alcatroado e ficamos apenas limitados às veredas ou carreiros, caminhos sinuosos rasgados na aridez da paisagem, e por fim sozinhos, confinados ao nosso próprio isolamento, à espera de um fim que tarda ou nos surpreende ainda, porque teimamos em continuar vivos...

O tempo que vivemos não chega para o tempo que queremos viver e quando o primeiro se esgota, ou começa a dar sinais de um cansaço que se anuncia em cada gesto, o tempo das cidades, dos países, das pessoas e da sociedade já não tem mais espaço para nós. O espaço que antes ocupávamos começa a ser reclamado pelos que nada entendem dos sonhos dos velhos. São sonhos desajustados da visão que os vivos têm sobre aqueles cujo futuro é já só a morte e então a presença desses seres incompreendidos e incompreensíveis começa a incomodar a urgência dos sonhos daqueles que se atropelam uns aos outros, na busca duma felicidade que se confunde com sucesso, duma racionalidade que se mistura com frieza, de um amor que cada vez mais se esgota em condescendência e depois mesmo, numa eterna dúvida que se glorifica em incerteza e no fim, todos caminham para o mesmo futuro. A morte é o maior de todos os sucessos que se conseguem alcançar...

Raramente conseguimos fixar o nosso olhar nas rugas de um velho e se o fizéssemos mais regularmente, com atenção e sentido de compreensão pelo significado daqueles sinais de vida vivida, saberíamos, talvez, descodificar que em cada ruga se aloja também o futuro que todos nós vamos ter... E então, veneraríamos aquela textura de peles enrugadas e expressivas e ver-nos-íamos reflectidos em cada uma delas... Velhos como os velhos já são... Eles são a ante-visão de nós próprios e nós nem isso sabemos distinguir...

domingo, 5 de maio de 2013

Página em branco

Quando se começa, tudo é branco. A página e tudo à volta. As paredes também...

As paredes das cidades são também páginas em branco que convidam ao pensamento...
Escrito na parede

As paredes são como páginas abertas nas cidades, nas vilas, nos bairros, na urbanidade das nossas vidas e na brancura das nossa ideias. Tudo é branco, até nós nelas inscrevermos o nosso pensamento, os nossos anseios e desejos, as nossas culpas e as nossas queixas, os nossos silêncios e os nossos gritos, porque há uma altura em que não mais os podemos conter. Não mais podemos calar o que nos vai na alma e nos entope a consciência.


"É tão difícil guardar um rio quando ele corre dentro de nós" e depois ali fica no vazio da parede, a cor verde de esperança, o sentido do nosso desabafo, que esperamos ser transmitido aos outros. Quantos mais ali passarão e se interrogarão sobre quem teve o impulso de escrever aquilo?... Quantos mais não tentarão imaginar a pessoa que o fez!?... Quantos mais não ficarão a pensar no significado da frase?... E assim, uma mensagem solitária e perdida nos nossos passos pela cidade, começa a fazer a travessia pela memória de quantos por ali passarem e atentarem no significado daquele escrito...

Mas aquela mulher que passa, em passo decidido e ar longínquo, reinscreve a brancura da sua roupa, qual borracha, na parede branca com pensamentos verdes e não terá, porventura olhado sequer para o que ficou atrás de si. Quem sabe também os pensamentos que lhe iriam na alma, o diálogo surdo que desenrolava consigo própria, absorta em dificuldades, preocupações ou apenas devaneios do seu interior?... As urbes são o cruzamento de tudo isto, de pessoas e pensamentos, de ansiedades e perturbações, de serenidades e alegrias. E nem tudo pode ser sentido por todos e nem todos se podem aperceber das coisa e gestos que se penduram pelas paredes onde a sua sombra se inscreve. No entanto, tudo está lá. Quem caminhar atento pode descobrir um mundo de códigos e de mensagens que se inscrevem até no ar que nos envolve. É por isso desejável que se olhe e se sinta tudo o que as cidades têm para nos oferecer. Até o ar que têm para nós respirarmos. E quando a cidade tem um rio, que até nos pode extravasar o corpo, nos é permitido navegar e esse apelo deve ser cumprido. Por isso é tão difícil guardar um rio...


Mensagem...